Você não deve ser diferente da maioria que eu conheço. Andando por uma cidade que pensa ser dono, sentando em mesas de bares e observando o fluxo constante de pessoas saindo de escritórios. Pessoas indo para bairros dormitórios (ou para a próxima esquina), nesse lugar que nunca dorme, um formigueiro de gente e rostos sem nome: único lugar para chamar de lar.
A maioria dos seus amigos não deve ser muito diferente dos meus: jovens entre 20 e 30 anos, uma geração sem grandes ideais, quase sem sonhos, a menos que você conte como sonho pequenas realizações de fins de semana e amores efêmeros que acumulam como tampinhas de garrafa. Eles desejam algo mais do que um romance de uma noite, e quem não deseja? A cidade transpira amor em cada semáforo de três tempos.
Você deve conhecer também um ou dois viciados, e quem não conhece?
Não falo apenas em barbitúricos e metanfetaminas: há mais tipos de vicio do que se imagina. Pessoas viciadas em café, cigarros e bebida. Pessoas viciadas em trabalho, em correr, em colecionar pequenas tralhas que entopem seu apartamento pelo resto da vida. Pessoas viciadas em solidão e pessoas viciadas em pessoas.
Há pessoas viciadas em amor.
E mesmo esse último tem suas diversas formas, desde o paternal ao destrutivo, e quer saber? A maioria acaba muito mal, mas são tão belos quanto você poderia desejar nesse meio tempo.
Nan Goldin tem muitos amigos desse último tipo, e todos eles amam e vivem com uma intensidade que, sentados e observando a vida passar, não podemos imaginar. Fazem parte do cenário pós-punk da nova York do começo da década de 1980, e também parte de um slide show de longa duração chamado “The ballad os Sexual Dependency”, que vi exposto na ultima bienal de São Paulo, em novembro. São retratos íntimos, sempre em construção, granulados, de cenas de um cotidiano de “sexo, drogas e rock and roll”, uma frase já clichê que nos faz perder um pouco a intensidade do que representa. São fotos tiradas entre as décadas de 1980 e 2004, divididas em capítulos e aproximando utopia e realidade enquanto uma geração chega a um fim trágico. Tudo volta com uma carga maior quando descobrimos que a maioria dessas pessoas morreu de AIDS alguns anos depois ( já com o trabalho em circulação), o que dá um significado maior ao nome escolhido.
O que nos atraí com tanta intensidade nessas fotos? Penso que a juventude perdida, decadente, em vias de extinção, se aproxima de alguma forma a uma coisa frágil, como uma arvore num furacão, ou uma mosca de março. Você sabe que nenhum deles viverá muito, que não estarão aqui no próximo ano, então cada momento em que conseguem ficar de pé é um passo maior do que podem dar, a ilusão de que são imortais. A juventude que se destrói dá a ilusão de imortalidade, ilusão de que paralisa o tempo, num instante de overdose, como em uma fotografia.
O livro com as fotos foi lançado alguns anos atrás (indisponível no Brasil, pelo que eu pesquisei), mas a intensidade do trabalho só pode ser sentida no slide show, com um set list de musicas que vão desde Petula Clarck à James Brown. A cabeça divaga enquanto lembramos nossos próprios amigos e (por que não?) de nossas dependências, sexuais ou não, pessoais ou não.








0 comentários:
Postar um comentário