sexta-feira, 1 de julho de 2011

Março.


Preferia as primeiras horas da manhã e a neblina que emergia do córrego, quase concreto, que por uma dezena de metros corria na superfície saindo da escuridão dos esgotos. Essa outra cidade que desconhecem, a Paris por baixo de Paris, a São Paulo dos bandeirantes em sistemas de escoamento que levam as águas dos antigos rios em linhas uniformes, como o metrô. Galerias que cospem como um deus zangado que rejeita as oferendas, que exige sacrifícios além da capacidade dos homens, entope as avenidas e quer ser ouvido, venerado, adorado.

Se eu te falar que ele mergulhava até os joelhos nesse lixo, que caminhava escondido por uma cidade que poucos viram e procurava antigos grafismos nas paredes de pedra bruta? Que passava horas, talvez dias, sem ver a luz do sol, e se perdia em caminhos onde reinava uma limpeza asséptica maior do que a encontrada em lugares acima. Que não só de lixo e águas turvas era feito, mas de tudo o que as pessoas desconsideram e jogam fora, milhares de sonhos abandonados e partes de uma vida que não interessava mais a ninguém saber. O garoto que foi campeão de times colegiais, a garota que escrevia poesias trabalhando num supermercado. Recolhia todos esses trechos de pessoas e montava seu Frankenstein num caderno de capa de plástico, a salvo dos olhares e protegido do tempo das galerias, a eternidade no armário do seu quarto.

Salvava o dos outros, quem salvaria o seu? Que ia sumindo cada dia, pedaços de papel, documentos, cartas de amor, telegramas, e-mails impressos, listas telefônicas, revistas de viagem, passaportes falsos, uma coleção de selos, bolachas de cerveja, frutas de cera, plantas de plástico, rebocos da sua casa, pedaços da sua vida, retalhos da sua alma...

E trechos da sua fala.

Isso ninguém preservava, e sumia se preenchendo com os outros. Olhava as águas escorrendo pelo córrego Tamanduateí, onde séculos atrás, um bandeirante matador de índios limpou suas mãos imundas naquelas mesmas águas (elas nunca mais ficaram transparentes) e desejou por um momento uma cópia sua, barra da calça suja, mãos pretas e tosse contínua, recolhendo sua vida e a vivendo em seu lugar.





"Anotações de um trabalho" é uma série de textos, trechos, crônicas e frases que falam sobre tempo, registro e memória ( fotográfica ou não, real ou não). Originalmente feita para um trabalho final sobre a exposição Geração 00- Nova fotografia Brasileira, vai aqui publicada picada, fragmentada, como às vezes vêm as lembranças.
* A foto de abertura é de um grafiteiro chamado Zezão, que realiza seu trabalho em  lugares onde quase ninguém entra: casas abandonadas, por baixo das pontes, em galerias de esgoto e desembocadouros de córregos. O oposto do que a arte urbana costuma ser.

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