segunda-feira, 25 de julho de 2011

O homem é a medida de todas as coisas.


Clara ergue suas mãos para além do que acredita ser clara, o mundo que a cerca separado das sensações que representa, as cores e sons bem mais que apenas vibrações em células primordiais. A pele, nessa equação de dentro e fora não se encaixa e é fronteira, visível do invisível, nos micropontos de frio que se arrepiam.

Os olhos buscam na paisagem algo de familiar, do mesmo modo que as mãos, espalmadas, buscam no corpo a lembrança do prazer. Parada numa esquina movimentada de uma cidade que não cessa reconstrói as partes do seu caráter que a sujeira trouxe e levou. A sujeira, isso que a cidade deixa e forma camadas que a protegem mais que as roupas também é fronteira, também é separação: a protege de um modo que só conhecemos de passagem, protege sua memória dos fedores diurnos, protege sua consciência entre o ser o estar.

Clara é naufraga, fora e dentro. Se por fora as coisas insistem em mudar de forma, confundindo seus sentidos, dentro há fluidos circulando, entrando e saindo, uma dança amniótica e primordial que cria uma espécie de religião científica: é acreditar no que médicos e biólogos dizem, nomes complicados para algo que o bom homem do século XIX chamava apenas de males do corpo. Talvez descubram daqui a um par de anos que épocas mais simples estavam certas e parem de nos empurrar essa liturgia de soros e substâncias.

Talvez o coração dela (imenso, vermelho, bombeando para todo o corpo a pieguice tão característica), seja só fluido corporal e o amor (e consequentemente a atração sexual) um impulso elétrico de dois neurônios conflitantes. No ato de levantar a xícara de café entre as frases as ideias mudam seu sentido, e no ato de escrever talvez resida a centelha, para um terceiro, de um estopim elétrico que inicie essa libido. Fugindo de clichês e os encontrando na próxima esquina, para Clara o amor é a substância que sua pele-fronteira não consegue tirar do mundo.



Foto retirada daqui, um estudo/ensaio com moradores de rua dos Estados Unidos e da Europa chamado "O invisível aos olhos"
"Anotações de um trabalho" é uma série de textos, trechos, crônicas e frases que falam sobre tempo, registro e memória ( fotográfica ou não, real ou não). Originalmente feita para um trabalho final sobre a exposição Geração 00- Nova fotografia Brasileira, vai aqui publicada picada, fragmentada, como às vezes vêm as lembranças.

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