quarta-feira, 3 de agosto de 2011

A ponte.

A ponte atravessa três cidades e busca nos olhos dos outros o espaço a se fixar, na terra que falta, no asfalto que racha, nos cabelos puxados pra trás e sapatos apertados andando rápidos nos túneis que levam ao metrô. Nessa vida que corre por escadas rolantes, nessas mãos que perdem digitais e nessas vozes que cantam em uníssono o nome das estações que passam no painel próximo a porta: Santa Cecília, Madalena, Matilde; nomes de mulheres e nossa senhora dos desgraçados levando minha cabeça para além de todo o panteão que venera e cobra.

“cuidado com o vão entre o trem e a plataforma. Evite atrasos, não segure as portas do metrô. Os bancos de cor cinza são reservados a gestantes, idosos, portadores de necessidades especiais e crianças de colo. Desembarque pelo lado direito do trem. Cuide de seus pertences: o metrô preza sua segurança.”

A ponte não, ela é impassível. Não protege, mas não cobra. Não exige, mas também não acolhe, atravessa três cidades e milhões de vidas a atravessam; é cinza, imensa e parece ser feita da mesma matéria do qual são feitos os sonhos, é invulnerável e carrega o vulnerável. Quisera ser feito do mesmo metal que o seu medo é feito, das mesmas vigas que te sustentam e não dessa vida de toupeira no útero das minhas estações quentes embaixo da terra;

Cio da terra, propícia estação.

Baldeação, aperto, empurrões na hora de atravessar a porta. Cuidado com meu pé, senta aqui, você ta grávida. Vê, finge que dorme enquanto tem idoso de pé. Vergonha. Te contei o que aconteceu na terça? Mandei e-mail e ela não me respondeu, depois foi falar pro supervisor que eu tinha sumido com os arquivos da reunião de São Caetano. Vida dura hein, acordar cedo e voltar tarde. Semana que vem é aniversário do meu sobrinho, vai fazer dois anos e é tão inteligente. Não sei o q é pior: parado na linha ou parado no trânsito; pelo menos lá a gente vai sentado.

A ponte, impassível, é maior que todos os problemas que ela carrega. Observa de cima como um deus raivoso que não aceita oferendas, como uma sombra que marca a paisagem, como um pai ausente que cobra o que já não controla. As pessoas não trocam sua majestade e segurança pelo apertado dos vagões da hora matinal por um simples motivo: é muito mais fácil estar com os outros que com nós mesmos. A ponte, mesmo sendo tão grande, deixa um espaço apertado para você, e para mim, e para todos nós que nos apertamos e acotovelamos dentro da cabeça, que somos feitos da mesma matéria que o rush, que o congestionamento, que a confusão.

Cio da terra: próxima estação.


"Anotações de um trabalho" é uma série de textos, trechos, crônicas e frases que falam sobre tempo, registro e memória ( fotográfica ou não, real ou não). Originalmente feita para um trabalho final sobre a exposição Geração 00- Nova fotografia Brasileira, vai aqui publicada picada, fragmentada, como às vezes vêm as lembranças.

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