domingo, 10 de julho de 2011

O tempo para além do tempo.

O tempo para além do tempo é uma caixa fria de metal, fechada a cadeado, guardada na mesa de cabeceira herdada dos pais, sombras sujas de adesivos e restos de cola dão um aspecto de abandono. O tempo para além do tempo é um álbum de fotografia antigo, nem seu, nem de ninguém, cheio de parentes do qual não se lembra ou de situações que não presenciou. Em cada foto, a expectativa da sua espera, em meses antes do nascimento, em cada boca o tom de conversa sobre o primeiro filho/sobrinho/neto. Pessoas idealizando uma pessoa futura que agora idealiza um passado e imagina (vagamente, en passant) o que falaram, o que sentiram todos eles quando souberam que viria, que continuaria, que enfim não há vida tão cinza a ponto de não ser tingida por cores estranhas que costumam vir, cores de sonho nebulosas e vibrantes.

O tempo para além do tempo é reflexo de um mundo que não chegou a se concretizar. Aqueles rostos formando teatros e as sombras que deixaram nos móveis da sala (passageiras, mancharam o chão de vinho numa noite de festa ao quinto mês de gestação), e os móveis antigos, duradouros, também são imagens maiores que as sombras que aqui habitam hoje, móveis de compensado, madeira que não é madeira, portas empenadas e paredes descascando, o que faz com que a casa cheia de gente seja o real, o verdadeiro, e esse vazio de corredores longos apenas espera que um estado volte. O tempo para além do tempo é o ideal, preso entre duas folhas de cartolina que protegem a capa amarelecida de um livro (outrora) branco, ao mesmo tempo que é aqui, e que sou eu, esperando que esse estado passe para além e que venha um novo, substituí-lo, um julho além de julho.

A fotografia então, não é mais espaço, nem tempo, mas apenas estado de espírito. Com o perigo de se contaminar pelo tempo dos outros não abre nunca a gaveta ao lado da cama. Cria uma situação que nunca viveu e a interpreta como quiser, bota fala na boca dos personagens e escreve para que se torne verdade. O tempo para além do tempo é só uma caixa fria de metal, fechada a cadeado, mas o homem para além do homem é uma busca pulsante e viva de auto-afirmação.

"Anotações de um trabalho" é uma série de textos, trechos, crônicas e frases que falam sobre tempo, registro e memória ( fotográfica ou não, real ou não). Originalmente feita para um trabalho final sobre a exposição Geração 00- Nova fotografia Brasileira, vai aqui publicada picada, fragmentada, como às vezes vêm as lembranças.

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