O tempo há de curar todas as feridas, era o que minha vó diriase eu a tivesse conhecido. Dela só guardo lembranças de retratos espalhadospela casa e uma história que minha mãe conta, de quando todos eles erampequenos e meu vô veio à São Paulo acompanhado do filho mais velho. Chegando,não encontrou a situação fácil que esperava e foi adiando o envio de notícias.Mascarava a situação com eufemismos nas poucas cartas que remetia, floreavademais a realidade e mandava nos envelopes o pouco dinheiro que juntava. Minha vó, iludida por aquela sensação de bem-estar ( e a desconfiançade que um homem sozinho na cidade grande não teria a cabeça no lugar), pegou os oito filhos e desceu pra S. Paulo com poucas malas e muita esperança.
Encontrou um quarto pequeno no Ipiranga que mal dava paraduas pessoas, quem dirá 11. Aquele quarto foi a casa de todos eles por 20 anos e uma sucessão de idas e vindas. De senhorios que não admitiam crianças devido ao barulho. De primos distantes que vinham do garimpo de serra pelada. Do comércio ilegal nas fronteiras do Paraguai. Da puta vida de imigrações pela América Latina. 20 anos de portas abertas e colchões espalhadas pela sala.
"Onde comem 11 comem 30", e nunca negou estadia pra ninguém.
O tempo há de curar todas as feridas, dizia minha vó, e desanar as desconfianças. Ao tempo cabe aumentar os espaços e deixar que osbraços vaguem livres pela casa, desimpedidos do umbral da porta. É dele aresponsabilidade de aceitar sem fechar os olhos e levar para frente péscansados. O tempo há de levar as pessoas cada qual para um canto e aumentar essa casa pequena aos poucos, e virá um dia a saudade de não encontrá-la tão barulhenta quanto ontem.
Ao tempo o que é dele e que a terra lhe seja leve, seria umafrase que ela falaria, se eu a tivesse conhecido. Isso de imaginar uma pessoatão distante e mesmo assim tão perto ( que criou minha mãe e tudo o que ela é hoje, para o bem ou para o mal) é um exercício mental de me imaginar comoutras pessoas ao meu redor. Perto da morte meu avô quase não reconhecia ninguém, perdido numa penumbra eterna que era seu quarto no primeiro andar. Passava lá, com 5, 6 anos, pedia a benção e ia cuidar da minha vida. O quarto se fechou um dia e passou meses assim, quiçá anos, trancado a chave juntando poeira e amargura. Um dia as janelas abriram, os móveis foram espanados e os lençóis queimados. É disso que lembro, é a única coisa que consigo lembrar.
Nada é eterno, nem mesmo as fotografias: abri o álbum que achei caído atrás do armário (por quanto tempo e por quantas faxinas ficou ali?) e as traças corroeram o rosto de todas as fotos. Me resta escrever o que me foi contado, antes que o tempo apague também todas as lembranças.
"Se o que dizem for verdade, você é uma sombra na quarta dimensão"
"Se o que dizem for verdade, você é uma sombra na quarta dimensão"
A imagem de abertura desse texto é um trabalho de Jonathas de Andrade intítulado educação para adultos, onde ele resignifica o método de alfabetização criado por Paulo Freire misturando as fichas originais com cenas atuais, misturando as legendas e atribuindo dois ou mais significados a uma mesma imagem.Quando conheci esse trabalho a primeira coisa que me veio a cabeça foi essa história e de como elas retratam a época em que tudo isso acontecia.




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