terça-feira, 31 de janeiro de 2012

.meu outro retrato.

você está ali, o tempo todo, imóvel, focado. eu nem preciso olhar mais para saber sua posição exata, o que eu sei é que você está ali, 24 horas por dia, me encarando infinitamente. se eu estiver de um lado ou de outro do quarto, tanto faz, seus olhos me acompanham, ainda que eles não saiam do lugar.

estou no trabalho, estou com os amigos, estou no cinema, estou dormindo e posso ter sempre essa certeza, de que lá você estará olhando pra mim. olhando por mim? nunca saberei. o mais provável é que você apenas me olhe, mas não me observe, não saiba de mim, porque se assim não fosse, ao invés de um simples retrato, você seria uma presença.

mas ali está você e ali também você não está. no mesmo quarto onde você nunca esteve. mas está. ainda permanece. não existe mais o cheiro, não existe mais o toque, não existe mais sequer o sentimento, mas existe sua imagem. e eles me perguntam, porque você ainda faz parte da minha penteadeira. e eu digo que você está lá ainda para lembrar que não está mais em minha vida. paradoxo? engraçado? doentio?

nada disso. você hoje se resumiu a um retrato. uma lembrança. um olhar que me persegue, mas que não sabe onde eu estou. aonde eu cheguei. um olhar que não percebeu as mudanças no quarto, as mudanças na vida, as mudanças no porta-retrato. eu posso ter medo de encontrar os seus olhos, mas jamais terei medo do seu retrato.

de alguma forma, é bom saber que você ainda está por perto.

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